Thursday, December 26, 2013

Carta ao Nosso Marechal António Teixeira Rebello




Meu Marechal

Não abdicando de me manter em sentido, peço que me permita o à vontade de me dirigir a si. Pensei se seria adequado fazê-lo, até porque existe algum precedente de conversas mal sucedidas com pessoas do passado, com pessoas que, enfim, já não estão vivas… Acontece que acho controversa a afirmação que o Nosso Marechal não esteja vivo.

É Natal, fim do ano de 2013, em que o nosso Colégio foi colocado sob uma grave ameaça. Muitos gostariam de saber o que pensa do tema das meninas, se são elas a ameaça…. Pessoalmente estou certo que considerará incontroverso que as meninas são bastante diferentes dos rapazes, em especial na adolescência. Estou certo que concordará que a ameaça não tem origem nessas meninas nem nos seus pais. A ameaça vem, como sempre, da mistura venenosa da ignorância com o egoísmo, os dois velhos inimigos da nossa cultura de disciplina e solidariedade.

Quando reflicto no percurso dos meus filhos, ou no meu próprio percurso e dos meus camaradas, imagino a sua satisfação quando começou a observar os resultados extraordinários da educação de rapazes em ambiente militar. Um sistema baseado na força do grupo , o grupo que é um motivo constante e bastante dos jovens rapazes, um grupo forte, com regras claras, controlando e orientando a agressividade para objectivos de formação. Imagino o orgulho que teve quando começou a ver os resultados práticos do sistema que adoptou. Um sistema simples e robusto completamente ajustado ao processo de desenvolvimento dos rapazes. Daqui de onde estamos, podemos já ver 210 anos de resultados.

O Nosso Marechal foi ministro num período de grande crise, vindo da Cumeeira de longe de tudo, por isso conhece intimamente a prática e as questões do poder. Concordará que o que está em causa não são as meninas. Essas crianças são apenas um meio, são a ferramenta utilizada para provocar uma mudança rápida, radical, muito visível e capaz de provocar danos irreversíveis. O que está verdadeiramente em causa é se podem ou não os militares ensinar segundo um modelo próprio e diferente. Se a educação militar for igual a todas as outras então os militares em nada são diferentes. Se em nada são diferentes é porque os militares não existem para além das suas operações, as quais por mais eficazes que sejam terão sempre muito menos utilidade que o seu contributo para a coesão do país. Quem não acredita em Portugal como Estado Soberano nunca verá qualquer utilidade nas Forças Armadas como instituição, muito menos nas suas emanações simbólicas. Que acontecerá se mesmo os militares não entenderem e cultivarem a sua função, abdicando de se considerarem, verdadeiramente, parte de uma instituição ?

Temos então o Colégio e o seu valor simbólico. Como disse o Eduardo Lourenço (92/1934) o Nosso Marechal formou um "mini-exército sobre qual o verdadeiro exército se desenvolveu , colocando-se radicalmente ao serviço de Portugal". Essa profundidade histórica e a coesão essencial do universo dos Antigos Alunos ocupa espaço e incomoda alguns. Perversamente, esta dimensão simbólica está a ser utilizada para fazer uma exibição de poder, desrespeitando a história e a natureza militar da instituição. Para este poder o Colégio  é completamente indiferente, desde que lá se passe exactamente aquilo que lhe é ordenado e que aceite beber o veneno que o fará morrer aos poucos, sem o incómodo de uma morte violenta.

Meu Marechal, esta é a maior ameaça que o seu legado desde sempre enfrentou. Com os franceses Portugal estava também assim fraco e a morrer. Mas o Rei estava no Brasil.  Além disso, quando vieram os franceses estava o Colégio a nascer, como disse o 92, para se colocar radicalmente ao serviço de Portugal. Não podemos agora ser menos radicais, no sentido de mantermos as nossas raízes patrióticas, defendendo-as de quem as quer cortar. Nada de essencial mudou desde essa altura e continuamos a precisar da alma que superou todas as crises, todos os franceses, todas as guerras, mesmo as mais lancinantes e fratricidas. Sem alma morrerá o Colégio, mas Portugal terá morrido antes.

 É Natal no mundo Meu Marechal, tempo de renascer. Nós Portugueses teremos de opor ao fratricídio que nos assombra, a fraternidade que é a essência da sua obra. É também tempo da família e por isso vou dar a ler esta carta aos meus irmãos. Estou certo que aprovará.

Carlos Rio Carvalho (307/71)
Natal de 2013




Friday, March 01, 2013

3 de Março de 2013





Sou com orgulho Antigo Aluno do Colégio Militar.

O meu Colégio completa este ano 210 anos, período em que formou pessoas tão diferentes como Eduardo Lourenço, António de Spínola, António Brotas, Alexandre Serpa Pinto, Jaime Cortesão ou Rão Kyao, para citar apenas meia dúzia contrastantes, entre centenas de Antigos Alunos que ajudaram a escrever a história de Portugal nestes dois séculos. Muitos caíram a combater pelo futuro de Portugal, o primeiro logo em 1810 contra os franceses na serra do Buçaco, na linha da frente a comandar os seus homens: o Alferes Luís das Neves Franco.

Sinto o meu Colégio hoje, como sinto o campo no interior de Portugal onde trabalho, algo que criámos e cuidamos durante séculos e que nos últimos anos descuramos com uma boçalidade de pequenos novos ricos. Ambos têm alma e constroem almas, ambos nos pertencem, ambos são desconhecidos por muitos, ambos valem muito mais do que parecem, ambos precisam de ser bem geridos para expressar o seu valor.

O Colégio Militar sofre as vicissitudes desta escuridão, onde parece que o nosso futuro depende apenas de “fusões” e “cortes” decididos por grosso. Neste momento agradeço ao Henrique Raposo a clareza com que disse ... a cultura e as instituições estão a montante do crescimento ou empobrecimento ,isto é, a economia é uma consequência de escolhas culturais e institucionais.". Ele disse, bem escrita, a essência da minha motivação: a luta pelo meu Colégio está na linha da frente do combate pelo futuro de Portugal. No dia 3 de Março, logo às 9 horas, estaremos no Parque Eduardo VII no coração de Lisboa a mostrar isso mesmo.